Ascenção, queda e renascimento
Ascenção, queda e renascimento das peregrinações a Santiago de Compostela
(atualizado em 01/2026)
O auge do Caminho deu-se a partir do século 11 até o inicio do século 13. Neste período, chegou Santiago de Compostela a receber mais de 350.000 peregrinos por ano.
A partir da metade do século 14, as peregrinações a Santiago começaram a cair no esquecimento. As doenças, como a peste negra, as reformas religiosas, o confisco dos bens imóveis da igreja pela monarquia (incluindo aí confisco de albergues de peregrinos), o aumento da criminalidade nos caminhos, a abertura dos caminhos a Jerusalem e Roma (com a queda do Imperio Otomano), e outros acontecimentos, fizeram que os caminhos para Santiago fossem lentamente esvaziados.
Em 25 de Julho de 1867 uma Missa do Peregrino registrou apenas 40 participantes.
Finalmente, em 1939, por ocasião do final da Guerra Civil Espanhola, o ditador Franco declarou que a vitória dos Nacionalistas deu-se graças a proteção de São Tiago. O ditador declarou o santo como patrono da Espanha, dando inicio a um “revival” às peregrinações.
Nos anos 60, com o início da abertura da Espanha à Europa, começaram chegar os primeiros peregrinos, a maioria franceses.
O Papa João Paulo II visitou a tumba de Santiago em 1982 e em 1989, dando uma grande publicidade aos caminhos. Em 1987 a UNESCO declarou o Caminho Frances como Patrimônio da Humanidade, dando lhe mais um salto de popularidade.
Papa Calixto II (*1060 - 1124+), peregrino e grande divulgador dos caminhos.
Numero de peregrinos que chegaram a Santiago de Compostela
A popularização do Caminho e o boom pós Covid
Em 1993 e 1999 o governo da Espanha fez uma grande campanha publicitária, aproveitando o fato de seram anos de júbilo, dando um grande “boom” nos Caminhos. Os anos 2004 e 2010 também de júbilos, tiveram grande número de peregrinos. A partir de 2011, o número disparou.
A COVID fez explodir o número de peregrinos. Muitas pessoas passaram a quarentena em casa, descobrindo o caminho e repensando sua maneira de viver. Após 2022, o primeiro ano pós-covid, o número de peregrinos estourou.
O grande responsável pela renascimento dos Caminhos foi sem dúvida a internet. Com a advento da banda larga, do WiFi, da popularização da www, pipocaram na rede, no mundo inteiro, relatos de peregrinos maravilhados com a experiência. Extremamente "instagramável", o caminho se populariza no mundo todo.
Aliado a tudo isso, considere que o turismo em geral, no mundo todo, teve um crescimento excepcional a partir dos anos 90, alavancado principalmente pela popularização das viagens aéreas internacionais, que ficaram mais acessíveis.
Caminhos de Santiago - os anos de júbilo
Os Anos Sagrados Jacobinos, ou anos de Júbilo, são celebrados em todos os anos em que o dia 25 de julho, consagrado a São Tiago, cai num domingo.Essa coincidência (25 de julho cair no domingo) acontece a cada 6, 5, 6 e 11 anos.
O primeiro Ano de Júbilo de Compostela foi 1126, estabelecido pelo Papa Calixto II (que tinha sido peregrino antes de ser papa). O papa não viveu este ano, tendo falecido antes, em 1124.
É bom evitar peregrinar nesses anos, pois os Caminhos ficam superlotado.
Os últimos anos de júbilo foram : 1982, 1993, 1999, 2004, 2010, 2021. Os próximos anos de júbilo serão 2027, 2032 e 2038.
O perigo da superlotação do Caminho Frances
O ano 2025 apresentou um recorde de mais de 500.000 peregrinos chegando em Santiago de Compostela. Se considerarmos que a temporada começa em abril e termina em novembro, teriamos 8 meses (240 dias) de peregrinação. Isso daria uma média de 2.080 peregrinos/dia. Para Santiago de Compostela, não é um número expressivo. Entretanto, para as cidades menores 2,080 peregrinos/dia constitui um número bastante alto.
O acúmulo de peregrinos se agrava a partir de Sarria. O motivo é esse: é concedido um certificado de conclusão do caminho àqueles que peregrinarem pelo menos 100 km, ou seja, a partir de Sarria.
O acúmulo de peregrinos se agrava a partir de Sarria. O motivo é esse: é concedido um certificado de conclusão do caminho àqueles que peregrinarem pelo menos 100 km, ou seja, a partir de Sarria.
Há relatos de cidades pequenas do caminho não conseguirem alojamento para todos, e por isso tiveram que providenciar abrigos de condições bem precárias e desconfortáveis. A isso, junte o fato dos restaurantes não conseguirem atender todos a contento. Por esses motivos, muitos peregrinos começam bem cedo a caminhada, para chegar antes e garantir comida e vaga em albergues. Mas isso torna a caminhada em uma corrida, uma competição, maratona e esse não é a vibe certa para esta experiencia.
Este é um problema recorrente nas grandes cidades turísticas da Europa: o excesso de turistas.
Este é um problema recorrente nas grandes cidades turísticas da Europa: o excesso de turistas.
Os Caminhos de Santiago e as indulgências católicas
A indulgência era o perdão dos pecados, concedida pelo Igreja Católica. Em geral, o perdão era concedido mediante o pagamento de certa quantia de dinheiro, e este perdão “cancelava” algum tipo de pecado cometido. Por exemplo, se alguém tinha cometido adultério, pagava-se certa quantia à igreja, e estaria perdoado por esse pecado.
Não demorou muito, e a indulgencia virou uma grande falcatrua, com a Igreja Católica perdendo controle sobre ela.
A indulgência foi o principal motivo da cisão da igreja, surgindo então os protestantes (Luteranos, Calvinistas, Anglicanos, etc).
As indulgencias surgiram no século 13 e foram oficialmente extintas em 1487 pelo Papa Sisto IV.
A indulgência foi extinta pela Igreja, mas a tradição de se comemorar os Anos de Júbilo de Compostela ainda continua.
Papa vendendo indulgencias, gravura de Lucas Cranach, 1521
A indulgência plena aos peregrinos a Santiago de Compostela
A indulgência plena (de todos os pecados cometidos) aos peregrinos foi estabelecida pelo Papa Calixto II, por ocasião da publicação do “Codex Calixteus”, e era concedida apenas nos anos de Júbilo de Compostela.
Para se obter a indulgência, o peregrino deveria fazer o sacramento da confissão, fazer a comunhão na missa na Catedral de Compostela, e orar pelo Papa na Catedral. A confissão poderia ser feita em qualquer igreja, 15 dias antes ou depois da comunhão.
Esta concessão de indulgencia fez com que as peregrinações a Santiago de Compostela explodissem. Considerando isso, não é incorreto dizer que na época, os peregrinos eram uma multidão de pecadores…
A indulgência foi extinta pela Igreja, mas a tradição de se comemorar os Anos de Júbilo de Compostela ainda continua.



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